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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Malawi Bloat

Os ciclídeos dos grandes lagos africanos são, sem dúvida, dos mais populares na aquariofilia. A grande diversidade de espécies, a variedade de cores e a complexidade de comportamentos, torna-os fascinantes de manter num aquário biótopo. Para além da sua beleza, outro factor que leva os amantes do hoobie a optar por biótopos destes lagos é a facilidade de manutenção, num aquário com as dimensões adequadas, e a sua reconhecida resistência a doenças. No entanto as espécies do género Tropheus (Lago Tanganyika), do grupo Mbunas (Lago Malawi) e algumas espécies do Lago Victoria têm um “Calcanhar de Aquiles” – Malawi Bloat.
O termo bloat, que significa inchaço, refere-se ao estado terminal do peixe quando infectado por apresentar o abdómen completamente inchado, sendo este o sintoma mais marcante e visível da doença. Este estado surge numa fase avançada da doença por incapacidade do peixe em controlar o seu mecanismo de osmosoregulação.
Malawi Bloat é uma doença do foro intestinal e afecta principalmente os peixes, que no seu habitat natural, têm uma dieta baseada em alimentos vegetais. São peixes que se alimentam principalmente de algas existentes nas zonas rochosas e pequenos crustáceos por lá existentes. Com esta dieta, o seu sistema digestivo é composto por um estômago pequeno e um intestino bastante alongado para lhe permitir tirar maior proveito da “alimentação relativamente pobre”. Mas isto torna-os vulneráveis a doenças intestinais.
Não existe consenso sobre o agente que provoca a doença e, dos estudos existentes, nenhum é conclusivo quanto a uma causa comum. Há estudos que levam a crer que a doença é provocada por uma bactéria - Clostridium difficile - mas não ficou provado de que seja esta que actua em todos os casos (Beverly Dixon, 1997). Outros defendem que a doença é despoletada por parasitas - Hexamita spp. e Cyrptobia iubilans – e mais tarde o oportunismo da bactéria -Aeromonas hydrophilia- destrói o sistema imunitário do peixe e se multiplica exponencialmente até o levar à morte (Francis-Floyd, 1999). Há ainda quem defenda que Malawi Bloat não é uma doença mas sim a forma como se manifestam no peixe infecções intestinais provocadas por bactérias, protozoários ou os dois, não existindo um único protozoário ou bactéria que possa ser apontado como causador da doença (Jason Selong).
Seja como for, Malawi Bloat não é uma miragem e não aparece apenas no “aquário dos outros” ou em aquários mal cuidados. Ela pode aparecer no nosso próprio aquário por mais zelosos que sejamos. Por isso convém estar alerta.
É o terceiro maior lago de África. As dimensões aproximadas são de 600 Km de comprimento e 85 Km de largura. A superfície do lago está 470m acima do nível do mar. No norte é extraordináriamente profundo: 700m, ficando bem abaixo do nível de mar, sendo um ecossistema de água doce único, albergando mais de 500 espécies endémicas de peixes.
No aquário, diversas situações favorecem o aparecimento da doença. Aquários mal cuidados, com elevados níveis de nitratos debilitam os peixes e deixa-os à mercê de todas as doenças. Por isso é fundamental que sejam efectuadas trocas parciais de água regulares de modo a manter os níveis de nitratos em valores não prejudiciais. Parâmetros incorrectos da química da água também deixam os peixes expostos a doenças. É portanto fundamental respeitar os valores do ph e gh existente nos lagos de origem. Aquários desequilibrados na escolha de espécies, onde existe grande conflitualidade entre os habitantes, é um factor de stress e o primeiro passo para o aparecimento de Bloat nos peixes mais sacrificados. No entanto, o principal factor que causa a “demoníaca doença” é a alimentação incorrecta. Falei uma vez com um aquariofilista, que mantinha os seus Mbunas num aquário de 2 metros, e me disse que os tinha junto com peixes de todo o tipo, incluindo um Oscar, lhe dava de tudo, sendo o granulado de Discus a comida base, reforçada com larvas de mosquito, e que eles estavam bonitos e saudáveis. Evitei fazer qualquer comentário a este procedimento pois não tinha bases científicas para lhe provar o contrário. Posso dizer que passado um mês me contactou de novo a informar que tinha perdido os Mbunas quase todos. Tenho também conhecimento de outro aquariofilista que esteve a sobrealimentar os seus Mbunas durante uma semana antes de sair para férias, com medo de eles passarem fome na sua ausência. No dia de sair os peixes estavam doentes. É portanto fundamental fazer uma alimentação regrada. Não sobrealimentar nem dar alimentos com alto teor de proteínas animais. Para além destes casos, sei de um aquariofilista muito zeloso do seu aquário, que não se enquadra em nenhuma das situações descritas acima, e que, quando se apercebeu, tinha alguns elementos de uma colónia de Tropheus encostados a um canto. Mesmo sem razões aparentes a doença pode aparecer.
Os sintomas da doença são fáceis de detectar desde que se observe diariamente os peixes com atenção, principalmente na hora das refeições. Primeiramente, um peixe com a doença, começa por ficar apático, refugia-se num canto e na hora da refeição procura a comida mas, ou nem lhe toca ou cospe-a. As fezes do peixe são esbranquiçadas e a respiração é ofegante. Nesta fase não há que hesitar tem de se iniciar logo o tratamento pois há grande probabilidade de sucesso na cura. Numa fase mais avançada o peixe já nem sai do seu canto para procurar a comida mas ainda é possível salvá-lo. Quando apresentar o abdómen inchado poucas hipóteses tem de sobrevivência.
Mais importante que o tratamento é a prevenção. No entanto, se a doença aparecer, tem de se passar ao tratamento. O medicamento certo para o tratamento da doença é o Metronidazol. Este medicamento pode ser comprado na farmácia com o nome de Flagyl. As marcas da especialidade também vendem medicamentos próprios para o tratamento de parasitas intestinais mas, no fundo, o princípio activo é o mesmo e apenas o preço é superior. O tratamento deve ser feito de forma diferente caso o peixe doente se esteja a alimentar ou não. No primeiro caso, a maneira mais fácil e mais eficaz de o tratar é fornecer-lhe o medicamento na alimentação. Deve desfazer-se uns “poses” de um comprimido, embeber na comida e deixar absorver. Vorazes como são, não haverá qualquer dificuldade que engulam o medicamento. Procede-se desta forma, pelo menos durante 5 dias, em todas as refeições, ou até os peixes doentes se mostrarem activos e saudáveis. Caso o peixe doente deixe de se alimentar o procedimento tem de ser diferente. O primeiro passo será recolhê-lo num aquário hospital. No aquário principal os peixes saudáveis deverão ser tratados do modo descrito acima pois a doença é contagiosa e por isso convém prevenir, tratando até os melhores. No aquário hospital deverão ser colocados todos os peixes que mostrem indícios de estar doentes e fazer-se um tratamento com Metronidazol complementando com um antibiótico cujo principio activo seja Nifurpinol, que pode ser adquirido nas lojas da especialidade com o nome de Baktopur Direct (da Sera) ou Myxazin (da Waterlife). Enche-se este aquário com água do aquário principal e desfaz-se nele, um comprimido de 250mg de Metronidazol, por cada 40 litros de água e adiciona-se o antibiótico na proporção indicada pelo fabricante. Deve-se elevar a temperatura gradualmente até aos 30ºC e colocar uma bomba a produzir oxigénio. No início é de evitar alimentar os peixes para não poluir a água. De 8 em 8 horas deve fazer-se uma troca parcial de água, de cerca de 50%, no aquário hospital, com água do aquário principal, e repor os medicamentos na proporção de água trocada. Este procedimento deve repetir-se durante pelo menos 5 dias ou até os peixes doentes voltarem a mostrar indícios de estarem saudáveis e a alimentarem-se podendo em qualquer altura passar a fazer-se o tratamento por via oral através da alimentação, como acima foi descrito.

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